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Guerras frias

Publicado o 29 Março 2018

Numa nova guerra fria, sem recurso a armas mas a ciberataques e a outros expedientes do género, em que a internet se torna o terreno do conflito, de que forma seriam as empresas afetadas?

Há cerca de uma semana, em Londres, onde passei alguns dias, os meios de comunicação social “ferviam” com o caso da tentativa de homicídio do ex-espião russo, Sergei Skripal, e da sua filha, Yulia. Foram sete dias sucessivos em que o caso fez as primeiras páginas dos jornais. O poder britânico reagiu, acusando diretamente o governo russo da tentativa de envenenamento com um agente nervoso novichok, que a União Soviética e a Rússia desenvolveram ao longo dos anos 70 e 80. Aliás, este não é o único agente do género, pronto a ser usado imediatamente, na posse de Moscovo. Mas isso prova que a Rússia está por trás do crime que provocou já uma crise diplomática na Europa?

Eventualmente sim, até porque são conhecidos os métodos da Rússia sempre que um seu operacional foge ou se refugia num outro país, passando a ser considerado um traidor da pátria – encontrá-lo e abatê-lo passa uma mensagem clara a potenciais dissidentes.

Os britânicos contaram com o apoio incondicional de Estados Unidos, Alemanha, França, União Europeia e NATO e o contra-ataque resultou na expulsão de 23 diplomatas russos do Reino Unido. A resposta do Kremlin não se fez esperar: negando veementemente a acusação vinda do Ocidente, expulsou o mesmo número de diplomatas britânicos do território russo.

A cada dia que passa, há um novo desenvolvimento e já se fala numa resposta consertada de vários países à Rússia. E, como seria de esperar, volta a falar-se de “Guerra Fria”.

Há 60 anos, em pleno período da Guerra Fria, recordo-me bem da chamada crise dos mísseis de Cuba, quando o presidente Kennedy confrontou a União Soviética por causa da implantação de mísseis balísticos soviéticos na baía cubana, os quais poderiam a qualquer momento ser lançados sobre a costa da Florida. O mundo acompanhou, em suspenso, as tensas negociações entre os líderes dos dois países, que acabaram com a retirada dos russos perante o anúncio americano de que nunca invadiria Cuba sem provocação direta.

Nessa altura, a forma como se faziam negócios era completamente diferente. Era ainda recorrente o uso da carta e viajar de avião entre a Europa e a Argentina demorava três dias. Muitos empresários faziam a travessia por mar, demorando cinco semanas para alcançar os Estados Unidos e três para chegar à Argentina.

A Guerra Fria era, por isso, um conflito diplomático num mundo de países distantes uns dos outros, numa Europa dividida entre um Ocidente liberal e um Leste comunista, em que o comércio decorria lentamente. Grande parte das mercadorias fazia-se transportar em navios de carga geral, lentos e com tempos de carga e descarga em cada porto por onde a rota passava demasiado longos.

Esta linha de pensamento levou-me a questionar: como seria uma “Guerra Fria” dos tempos modernos? Para começar, encontraria um mundo completamente diferente – uma verdadeira aldeia global, como lhe chamou Marshall McLuhan, de distâncias curtas e com um desenvolvimento tecnológico acelerado. Neste mundo global e digital, as transações entre os países fazem-se a um ritmo igualmente rápido.

Numa nova guerra fria, sem recurso a armas mas a ciberataques e a outros expedientes do género, em que a internet se torna o terreno do conflito, de que forma seriam as empresas afetadas? Afinal, hoje em dia os negócios realizam-se num mundo sem fronteiras, recorrendo a operações de logística aperfeiçoada.

As operadoras de transporte marítimo constroem navios com capacidades de carga nunca imaginadas há dez anos, sem dar tempo sequer aos portos de evoluírem de modo a que estas embarcações possam ser manobradas nas suas plataformas. Cargas urgentes são entregues por vezes em menos de 24 horas. E os equipamentos e tecnologias usados nos centros de logística assentam em softwares de comunicação complexos, preparados para responder aos desafios de um mundo em desenvolvimento.

O que pretendo com isto demonstrar é que há atualmente uma grande interdependência, não só entre países mas nos sistemas que os mesmos usam para as suas trocas comerciais. Como seria então uma guerra fria num mundo assim?

Curioso é perceber que são os privados que financiam os Estados e os seus políticos, mas que são estes que detêm o poder de alterar completamente a nossa vida, fazendo-nos viver num mundo menos livre…